Ablação de Tumor Hepático

Ablação de Tumor Hepático: quando é indicada, como é feita e quais são os resultados esperados?

Receber o diagnóstico de um tumor no fígado costuma trazer muitas dúvidas. Uma das principais é: é necessário fazer uma cirurgia para retirar o tumor? Nem sempre.

Em pacientes selecionados, a ablação de tumores hepáticos pode ser uma alternativa eficaz à cirurgia ou até mesmo uma opção com intenção curativa. O procedimento destrói o tumor diretamente no fígado, geralmente sem a necessidade de retirar uma parte significativa do órgão.

Mas a ablação não é indicada para todos os pacientes. A escolha depende do tipo de tumor, tamanho, número e localização das lesões, funcionamento do fígado e presença ou não de doença em outros órgãos.

O que é a ablação de tumor hepático?

A ablação é um tratamento que busca destruir o tumor sem removê-lo cirurgicamente. Na maioria dos casos, o médico utiliza exames de imagem, como tomografia computadorizada, ultrassom ou ressonância magnética, para localizar precisamente a lesão. Em seguida, uma agulha ou eletrodo é introduzido até o tumor. A partir dessa agulha, é aplicada uma energia capaz de destruir as células tumorais.

Existem diferentes técnicas, entre elas:

  • Radiofrequência (RFA): utiliza energia de radiofrequência para produzir calor e destruir o tumor.
  • Micro-ondas (MWA): utiliza ondas eletromagnéticas para produzir calor e destruir as células tumorais. Permite tratar áreas maiores e, em geral, mais rapidamente que a radiofrequência.
  • Crioablação: utiliza temperaturas extremamente baixas para congelar e destruir o tecido tumoral.
  • Eletroporação irreversível: utiliza pulsos elétricos para provocar alterações permanentes nas membranas das células tumorais. Pode ser especialmente útil quando o tumor está muito próximo de estruturas importantes, como vasos sanguíneos ou ductos biliares, onde o calor poderia provocar lesões.

O procedimento de ablação pode ser realizado por via percutânea, através da pele, ou, em situações específicas, durante procedimentos laparoscópicos ou cirúrgicos.

Quais tipos de tumores podem ser tratados com ablação?

A indicação depende principalmente do tipo de câncer.

Carcinoma hepatocelular (CHC)

O carcinoma hepatocelular é o principal tumor primário do fígado e é justamente uma das situações em que a ablação possui papel mais estabelecido. Em pacientes com tumores pequenos, especialmente aqueles com uma única lesão de até aproximadamente 3 cm e boa função hepática, a ablação pode ter intenção curativa. Em casos selecionados, até três pequenos tumores podem ser tratados em uma mesma sessão.

Para tumores entre aproximadamente 3 e 5 cm, a ablação ainda pode fazer parte do tratamento, mas frequentemente associada a outras terapias, como a quimioembolização transarterial (TACE).

Para lesões pequenas e adequadamente selecionadas, a ablação pode alcançar taxas de resposta completa próximas de 90%, e os resultados de longo prazo podem ser comparáveis aos da cirurgia em determinados cenários.

Entretanto, tamanho não é o único fator importante. A localização do tumor também influencia diretamente a segurança e a eficácia do tratamento.

Metástases de câncer colorretal

O fígado é um local frequente de disseminação do câncer colorretal. Quando existem poucas metástases restritas ao fígado, a ablação pode ser considerada, principalmente quando a cirurgia não é possível ou não seria a melhor alternativa.

Em geral, são candidatos pacientes com número limitado de metástases, especialmente quando todas as lesões podem ser completamente tratadas com uma margem adequada de segurança.

A ablação pode ser associada à quimioterapia, dependendo das características do câncer e do planejamento definido pela equipe multidisciplinar.

Um estudo importante nessa área, o CLOCC, demonstrou benefício de longo prazo com a combinação de ablação por radiofrequência e quimioterapia em pacientes selecionados com metástases colorretais hepáticas não ressecáveis.

Metástases de outros tipos de câncer

A ablação também pode ser utilizada em alguns pacientes com metástases hepáticas provenientes de outros tumores, entretanto, a indicação é mais individualizada e vai depender da análise aprofundada do oncologista. Portanto, ter uma metástase no fígado não significa automaticamente que a ablação seja indicada.

Tumores neuroendócrinos

Pacientes com tumores neuroendócrinos também podem apresentar metástases no fígado. Nessas situações, tratamentos direcionados ao fígado incluindo cirurgia, embolização e ablação podem fazer parte da estratégia terapêutica.

Além de reduzir a quantidade de tumor, o tratamento pode ajudar a controlar sintomas provocados pela produção de hormônios pelo tumor.

Em alguns pacientes com várias lesões pequenas, a ablação pode ser combinada com cirurgia ou embolização para reduzir de maneira significativa a quantidade total de tumor no fígado.

• Colangiocarcinoma intra-hepático

O colangiocarcinoma intra-hepático é um tipo diferente de câncer primário do fígado. Nesse caso, a cirurgia continua sendo a principal opção com intenção curativa quando o tumor pode ser removido.

A ablação pode ser considerada em situações específicas, principalmente quando o tumor não pode ser operado, mas não é atualmente o tratamento padrão para todos os pacientes com colangiocarcinoma.

Quando a ablação pode ser uma opção?

De maneira geral, a ablação é mais interessante quando existem:

  • tumores relativamente pequenos;
  • número limitado de lesões;
  • doença predominantemente ou exclusivamente no fígado;
  • possibilidade de atingir todo o tumor com uma margem de segurança;
  • função hepática preservada;
  • e uma localização que permita realizar o procedimento com segurança.

Um ponto fundamental é que o tamanho do tumor não deve ser analisado isoladamente. Um tumor pequeno, mas localizado junto a uma estrutura muito delicada, pode ser mais difícil de tratar do que uma lesão um pouco maior localizada em uma região mais favorável.

Quando a ablação pode não ser indicada?

Existem situações em que a ablação apresenta maior risco ou menor chance de controle adequado do tumor.

Entre elas estão:

  • alterações importantes da coagulação que não possam ser corrigidas;
  • impossibilidade de criar um trajeto seguro para chegar ao tumor;
  • tumores muito próximos dos principais ductos biliares;
  • lesões próximas ao hilo hepático;
  • tumores junto a grandes vasos;
  • proximidade com vesícula biliar, intestino, estômago ou diafragma;
  • tumores muito grandes;
  • doença muito extensa ou disseminada para outros órgãos.

Isso não significa necessariamente que o paciente ficará sem tratamento. A depender da situação, podem ser consideradas outras técnicas de ablação, procedimentos combinados, cirurgia, embolização, quimioterapia, imunoterapia ou outras terapias sistêmicas.

Por que a localização do tumor é tão importante?

Imagine que o tumor esteja próximo de um grande vaso sanguíneo.

Nas técnicas que utilizam calor, como radiofrequência e micro-ondas, o fluxo sanguíneo pode retirar parte do calor da região tratada. Esse fenômeno é conhecido como efeito de dissipação térmica ou “heat-sink”.

Como consequência, pode ser mais difícil atingir completamente as células tumorais próximas ao vaso.

Por outro lado, quando a lesão está próxima de estruturas como os principais ductos biliares, o problema pode ser justamente o risco de o calor provocar uma lesão dessas estruturas.

Nessas situações, o planejamento precisa ser ainda mais cuidadoso. Dependendo do caso, técnicas como a eletroporação irreversível podem ser consideradas.

Como é realizado o procedimento?

O primeiro passo é um planejamento detalhado. Antes da ablação, a equipe médica analisa exames de tomografia, ressonância magnética ou ultrassom, avaliando não apenas o tumor, mas também sua relação com vasos, ductos biliares e órgãos próximos.

Em alguns casos, pode ser utilizada a fusão de imagens, combinando informações de diferentes exames para localizar com maior precisão uma lesão pequena ou difícil de visualizar.

Durante o procedimento, o paciente recebe anestesia ou sedação, conforme a técnica e a complexidade do caso. A agulha ou eletrodo é então introduzido até o interior do tumor, geralmente com orientação por imagem.

Depois que a posição é confirmada, a energia é aplicada e uma área ao redor do tumor também é tratada. Essa margem adicional é importante porque pode existir uma pequena quantidade de células tumorais além dos limites visíveis da lesão.

É necessário fazer uma grande cirurgia?

Na maioria dos procedimentos percutâneos, não. A ablação pode ser realizada através de uma pequena punção na pele, sem a necessidade de uma grande incisão abdominal. Essa característica pode proporcionar recuperação mais rápida e menor agressão ao organismo em comparação com algumas cirurgias hepáticas.

Entretanto, isso não significa que seja um procedimento simples ou que todos os pacientes possam ser tratados dessa maneira. A escolha entre abordagem percutânea, laparoscópica ou cirúrgica depende da localização do tumor e das características individuais de cada paciente.

Quais resultados podem ser esperados?

O objetivo da ablação pode ser curativo ou de controle da doença, dependendo do tipo de tumor e da situação clínica.

Nos tumores pequenos, especialmente no carcinoma hepatocelular, a possibilidade de controle completo é elevada quando o paciente é bem selecionado e é possível tratar toda a lesão com uma margem adequada.

No câncer colorretal metastático, a ablação também pode proporcionar controle prolongado da doença em pacientes selecionados, principalmente quando existe um número limitado de metástases e elas podem ser completamente tratadas.

Em outros tipos de metástases, os resultados dependem muito da biologia do tumor de origem.

É importante entender que ablação não significa necessariamente que o câncer nunca mais irá aparecer.

Mesmo quando o tumor é completamente destruído, novas lesões podem surgir posteriormente no fígado ou em outros órgãos. Por isso, o acompanhamento após o procedimento é fundamental.

O que acontece depois da ablação de tumor hepático?

O paciente normalmente realiza exames de imagem de controle após o procedimento.

A equipe procura verificar:

  • se o tumor foi completamente tratado;
  • se existe alguma área suspeita nas margens;
  • se houve alguma complicação;
  • e se apareceram novas lesões.

O acompanhamento pode incluir tomografia computadorizada ou ressonância magnética, de acordo com o tipo de tumor e o protocolo adotado pela equipe. Em alguns casos, pode ser necessário realizar uma nova ablação para tratar uma lesão residual ou uma nova lesão que tenha surgido posteriormente.

Quais são os riscos?

Como qualquer procedimento médico, a ablação apresenta riscos, embora complicações graves sejam pouco frequentes quando o paciente é adequadamente selecionado.

Entre os possíveis efeitos estão: dor, febre, mal-estar, sangramento, infecção ou abscesso, lesão dos ductos biliares, vazamento de bile, lesões de órgãos próximos e, raramente, disseminação de células tumorais pelo trajeto da agulha.

Febre, dor e mal-estar podem ocorrer nos dias seguintes ao procedimento e são conhecidos como síndrome pós-ablação. A disseminação tumoral pelo trajeto da agulha, conhecida como seeding, é rara e o risco pode ser reduzido com técnicas apropriadas, incluindo a ablação do trajeto.

Cada técnica também apresenta características próprias. A crioablação, por exemplo, pode apresentar maior risco de determinadas complicações, enquanto a eletroporação geralmente exige anestesia geral e sincronização com o ritmo cardíaco.

Ablação por radiofrequência ou micro-ondas: qual é melhor?

As duas técnicas são amplamente utilizadas. A radiofrequência (RFA) e a micro-ondas (MWA) apresentam resultados semelhantes em diversas situações, especialmente no tratamento de tumores hepáticos pequenos. A micro-ondas, porém, consegue produzir uma área de tratamento maior e atingir temperaturas elevadas mais rapidamente, características que podem ser vantajosas em determinadas situações.

A escolha da técnica depende do tamanho, localização e características do tumor, além da experiência da equipe médica e dos equipamentos disponíveis. Portanto, não existe uma técnica universalmente melhor para todos os pacientes.

E quando o tumor é maior?

Tumores maiores podem ser mais difíceis de tratar completamente apenas com uma sessão de ablação.

Em alguns casos, principalmente no carcinoma hepatocelular entre 3 e 5 cm, pode ser utilizada uma estratégia combinada, como quimioembolização (TACE) associada à ablação. A combinação permite atacar o tumor por diferentes mecanismos e pode aumentar a chance de controle local em pacientes selecionados. Em outras situações, podem ser necessárias várias sessões ou uma combinação de tratamentos.

A importância de uma equipe especializada

O sucesso da ablação não depende apenas da escolha do equipamento.

É fundamental realizar um planejamento preciso, considerando: tipo de tumor, tamanho, quantidade de lesões, localização, proximidade de vasos e ductos biliares, função do fígado, presença de doença fora do fígado, tratamento oncológico associado e possibilidade de obter uma margem adequada de segurança.

Por isso, a decisão idealmente deve envolver uma equipe multidisciplinar, com profissionais especializados em hepatologia, oncologia, cirurgia hepática, radiologia intervencionista e diagnóstico por imagem, conforme o caso.

Ablação: uma alternativa menos invasiva, mas que exige alta precisão

A ablação de tumores hepáticos evoluiu significativamente nos últimos anos e hoje ocupa um papel importante no tratamento de pacientes cuidadosamente selecionados.

Para determinados tumores hepáticos pequenos, especialmente o carcinoma hepatocelular, ela pode oferecer uma alternativa com intenção curativa, preservando uma maior quantidade de tecido saudável do fígado. Em metástases hepáticas, pode ser uma ferramenta importante para controlar a doença, especialmente quando existem poucas lesões e a cirurgia não é possível ou não é a melhor estratégia. Mas é importante lembrar: não existe um único tratamento ideal para todos os tumores hepáticos.

A indicação da ablação deve ser individualizada e baseada no tipo de câncer, tamanho e localização das lesões, condições clínicas do paciente e possibilidade de tratar completamente o tumor com segurança.

A pergunta mais importante não é apenas “o tumor pode ser tratado por ablação?”, mas sim:

“A ablação é a melhor estratégia para este paciente, considerando o tipo, tamanho e localização do tumor e todas as outras opções disponíveis?”

Essa resposta deve ser obtida após avaliação individualizada e discussão do caso por uma equipe especializada.

Na CRIEP, a avaliação individual ajuda a definir se a ablação hepática, a cirurgia ou uma combinação de tratamentos é a melhor estratégia para cada paciente. Se você quer entender se esse tratamento é indicado para o seu caso ou de um familiar, entre em contato com a equipe e agende uma avaliação.

WhatsApp: (11) 97283-7918

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