embolização e ablação

Embolização e ablação como aliadas à cirurgia e transplante de Tumores hepáticos

O tratamento dos tumores no fígado evoluiu de forma significativa na última década. Hoje, além da cirurgia e do transplante hepático, a radiologia intervencionista ocupa um papel cada vez mais estratégico no cuidado desses pacientes.

Técnicas como embolização e ablação ajudam a controlar a doença, preparar o paciente para procedimentos curativos e, em muitos casos, ampliar o acesso ao transplante para quem, a princípio, não preenchia os critérios. Neste artigo, você vai entender como essas abordagens se integram ao plano de tratamento dos tumores hepáticos.

O que é radiologia intervencionista e por que ela é importante?

A radiologia intervencionista utiliza métodos de imagem, como o ultrassom, tomografia computadorizada e raio-x, para guiar procedimentos minimamente invasivos diretamente no local da lesão.

No caso dos tumores hepáticos, isso significa tratar o câncer com alta precisão, sem necessidade de grandes incisões cirúrgicas, preservando o máximo o tecido hepático saudável.

Essa abordagem é especialmente relevante porque o carcinoma hepatocelular (CHC), o tipo mais comum de câncer primário do fígado, responsável por 80 a 90% dos casos, frequentemente se desenvolve sobre um fígado já comprometido por cirrose. Isso limita a função hepática e, muitas vezes, impede que o paciente seja submetido a cirurgias de grande porte no momento do diagnóstico. As terapias locorregionais da radiologia intervencionista surgem, portanto, como alternativas seguras e eficazes para esses casos.

Embolização: controlando o crescimento tumoral de dentro para fora

A embolização é uma das principais ferramentas da radiologia intervencionista no tratamento do fígado. Ela se baseia em um princípio fundamental: ao contrário das células hepáticas normais que recebem sangue tanto pela artéria hepática quanto pela veia porta, os tumores dependem quase exclusivamente da artéria hepática para sobreviver. Ao bloquear seletivamente esses vasos que alimentam a lesão, é possível causar a morte das células tumorais por falta de nutrição.

Atualmente, as principais modalidade de embolização para tumores hepáticos são:

  • Quimioembolização transarterial (TACE): combina a aplicação de quimioterapia diretamente dentro do tumor com o bloqueio do fluxo sanguíneo, concentrando o efeito tóxico na lesão e reduzindo os efeitos sistêmicos. É considerada o tratamento padrão para tumores hepáticos em estágio intermediário.
  • Radioembolização transarterial (TARE) com microesferas de Ítrio-90 (Y-90): utiliza partículas radioativas que emitem radiação de forma localizada dentro do tumor. O estudo LEGACY, publicado em 2021, avaliou o tratamento de lesões únicas de até 8 cm e observou uma taxa de resposta objetiva de 88,3%, com sobrevida global em três anos de quase 87%, resultados comparáveis aos de cirurgia ou transplante em casos selecionados. Uma recente meta-análise de 2026 (Cardiovascular and Interventional Radiology), que incluiu mais de 10.600 pacientes, confirmou que TARE e TACE apresentam eficácia equivalente como terapia de ponte ou de downstaging para o transplante.

Uma vantagem importante da TARE em relação à TACE é o melhor perfil de tolerabilidade e a possibilidade de uso em pacientes com trombose de veia porta, situação em que a TACE habitualmente é contraindicada.

Ablação: destruição precisa da lesão com calor

A ablação térmica é outro recurso importante da radiologia intervencionista. Nesse procedimento, uma agulha (eletrodo) é inserida diretamente no tumor, guiada por imagem em tempo real, e utiliza energia térmica (radiofrequência ou micro-ondas) para destruir as células tumorais.

A ablação por radiofrequência é o tratamento de referência para tumores pequenos (até 3 cm) que não tem indicação cirúrgica imediata. Já a ablação por micro-ondas vem ganhando destaque por produzir zonas de ablação maiores em menos tempo e apresentar menor taxa de progressão local para tumores de até 4 cm. Estudos mostram que a ablação por micro-ondas apresenta resultados de sobrevida comparáveis à ressecção cirúrgica para tumores entre 3 e 5 cm, com a vantagem de menor tempo de internação e menos complicações.

A ablação também pode ser utilizada em conjunto com a embolização, potencializando o efeito do tratamento.

Downstaging: abrindo portas para cirurgia ou transplante

Um dos papéis mais relevantes da embolização e da ablação é preparar o paciente para procedimentos potencialmente curativos, como a cirurgia ou o transplante hepático.

Em muitos casos, o tumor inicialmente é considerado grande demais ou está em uma localização desfavorável para a cirurgia ou ainda não preenche os critérios para listagem em transplante. Com o uso das terapias intervencionistas, é possível reduzir a carga tumoral, estratégia conhecida como downstaging e tornar o paciente elegível para tratamentos definitivos.

Terapia ponte: ganhando tempo com segurança

Para pacientes que já estão na fila de transplante hepático, a radiologia intervencionista atua como uma importante “terapia ponte”.

O objetivo é manter o tumor sob controle durante o período de espera, evitando a progressão da doença e reduzindo o risco de saída dos critérios de elegibilidade para transplante antes que um órgão compatível esteja disponível.

A eficácia dessa estratégia está bem documentada na literatura. Tanto a TACE quanto a TARE com Y-90 e a ablação são amplamente utilizadas nesse contexto, com escolha individualizada conforme o número, tamanho e localização dos nódulos, além da função hepática residual.

Procedimentos combinados: mais precisão e melhores resultados

Um dos avanços mais importantes da radiologia intervencionista é a possibilidade de combinar técnicas no mesmo plano terapêutico.

Em alguns casos, a embolização pode ser realizada antes da ablação para reduzir o fluxo sanguíneo do tumor, potencializando o efeito térmico. Essa sinergia é especialmente valiosa em lesões acima de 3 cm, que historicamente apresentam maior risco de progressão após ablação isolada.

A abordagem combinada pode incluir também, em casos selecionados, a associação com imunoterapia, campo em rápida evolução.

A abordagem integrada permite tratar tumores mais complexos com maior eficácia.

A importância da avaliação individualizada

Cada paciente com tumor no fígado apresenta um quadro clínico único. A escolha entre embolização, ablação, combinação de ambas, cirurgia, transplante ou terapia sistêmica depende de uma série de fatores, como tipo de tumor, tamanho, número de lesões, localização, função hepática, presença de cirrose e objetivos clínicos do tratamento.

Por isso, o acompanhamento por uma equipe multidisciplinar que inclua hepatologista, cirurgião, oncologista e radiologista intervencionista é essencial para definir a melhor estratégia, mais adequada a cada caso. As diretrizes internacionais mais atuais (BCLC, AASLD, EASL) incorporam explicitamente os procedimentos intervencionistas como parte central do algoritmo de tratamento do carcinoma hepatocelular (CHC).

A radiologia intervencionista não substitui a cirurgia ou o transplante, mas os complementa e amplia as possibilidades de tratamento e melhora os resultados.

Ao atuar no controle da doença, na redução do tumor para critérios cirúrgicos, na proteção do paciente durante a espera pelo transplante e na destruição direta de lesões selecionadas, embolização e ablação se consolidam como aliadas fundamentais no cuidado integral com tumores hepáticos.

Se você ou um familiar enfrenta esse diagnóstico, conhecer todas as opções disponíveis é um passo importante para um tratamento mais seguro, personalizado e eficaz. Nossa equipe está disponível para avaliar o seu caso e discutir o melhor caminho juntos. Entre em contato e agende uma consulta.

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